quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ainda sobre o amor ou o inominado.


"A razão de amar é simples. Um e um são dois. Eu te amo + eu te quero = dou um jeito de ficar contigo"Às vezes fica difícil conciliar gostar de alguém com nossas fases da vida. Os planos de viajar e estudar em Orlando, Marselha ou Dubai, a alta e quente temporada com toda sua curtição e ressaca, o rompimento de um namoro de dois anos, há quinze dias. Tudo desculpa contra o amor e sua impontualidade, que continuamente estorva caminhos e desvia rotas. Então deixa pra depois. O amor pode esperar, certo?

Certo para você que é daqueles que não aprenderam a acepção do amor. Penso, logo não sinto, não vivo, não amo. Em cartaz, o complexo de Romeu e Julieta. Sua afeição é pelas experiências plásticas, pelas projeções enganosas. Apaixona-se por estar apaixonado, por estar namorando, pela virtuose de amar. Mas no fundo não gosta de ninguém, desconhece que amar é dividir, aceitar, ceder, adorar e o mais importante: deixá-lo acontecer. O amor é maior que você, logo dá as cartas e a gente obedece prestando reverência subalterna. Amém. Do contrário, ele passa a vez aos mais interessados. Sai sem dizer que hora volta.

Seu objeto de amor, ou melhor suas conjunções favoritas são o "mas", o "porém", o "contudo". Feitas para acomodar palavras dentro de frases e desagrupar pessoas nas situações impostas pelo acaso ou destino, conforme crença. Eu gosto dela, mas ela ouve Rio Negro e Solimões a 50 decibéis. Eu amo ele, porém ele mora em Horizontina e eu em Porto Alegre. Sou apaixonado por ela, contudo tenho uma noiva legalzinha. Ora, ninguém ama alguém por gosto musical, divisas ou estado civil. São apenas balizas ou breves empecilhos. O "se" é uma boa e educada maneira de dizer a verdade. A pessoa simplesmente não está a fim de você.

Quem ama cuida, quem gosta quer estar perto, quem adora sabe que amor é verbo e não substantivo, é uma aventura diária carnal e emocional, não uma moldura bonita e pertinente a enfeitar as paredes da sua vida. Amor é manco de gramática, sendo quase tão certo quanto matemática, entretanto não aceitando resultados inexatos, com vírgula ou aposto. Todo pormenor a dividir duas pessoas deve levar nas costas qualquer nome. Amizade, capricho, tico-tico-no-fubá, quiproquó, pirraça, o que for. Menos amor.

A razão de amar é simples. Um e um são dois. Eu te amo + eu te quero = dou um jeito de ficar contigo, de andar do seu lado, de dividir tempo, cheiro, edredom, banheiro e melancia. A razão dos amantes não calcula-se no papel, na ponta do lápis. Sim no viver, sim no sentir. O amor existe no calor da iminência, do arredor, do tato e do contato. A frieza do resto, embora lembre um pouco amor, na real é qualquer bobagem.
(retirado do blog do Gabito - www.carascomoeu.com.br)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Olhar para minhas vovózinhas!


E me lembrei que hoje é o aniversário das minhas avós, das duas!
Tem coisa melhor que Vó?!
Doçura, lembranças, bolinho de chuva, cherinho de colo...
Viva minhas Vovózinhas!!

...


"Deixa-me!

Que tenho a ver com tuas naus perdidas?

Deixa-me sozinho com meus pássaros...

com meus caminhos...

com as minhas nuvens..."

Mário Quintana -na foto e na sabedoria.

Dica: Os pecados do meu pai.



Os Pecados do Meu Pai é a história de Pablo Escobar, o chefe do mais famoso cartel de drogas da Colômbia, contada por seu filho, que relata sua extraordinária infância. Com um poder inestimável, Escobar comandava o Cartel de Medellín e chegou a faturar 30 bilhões de doláres por ano com o tráfico.

Tinha seu próprio zoológico dentro de casa, com 200 animais, e recebia presentes inusitados - como manuscritos históricos do revolucionário Simon Bolívar, herói em boa parte da América Latina. Após a morte de seu pai em 1994, Juan Pablo trocou seu nome para Sebastián Santos Marroquim e mudou-se para a Argentina, temendo vingança por parte dos inimigos do pai.

O longa acompanha a história das duas principais vítimas de Escobar e como Juan tenta romper o ciclo de vingança e assassinatos através de uma busca de reconciliação com os filhos das vítimas de seu pai. O documentário é dirigido pelo cineasta argentino Nicolás Entel.

O tempo faz milagres...


Sinfonia Jurídica.


Beethoven e o Direito: Provocações Estéticas e Epistemológicas para uma Sinfonia Jurídica.

Enquanto escrevo essas palavras, estou ouvindo a nona sinfonia de Ludwig von Beethoven, na sua parte final - o quarto movimento. Esboço, há algum tempo, uma teoria estética semelhante à composição do referido maestro. Sempre quando trato de Epistemologia Jurídica com meus alunos, eu os levo à dimensão musical de Beethoven para compreenderem o significado da criação - especialmente no Direito. Confesso minha inconformidade com a Ciência, e em especial à Epistemologia Jurídica, pois mais de três seculos já se passaram e ainda não somos capazes de criar outros modos de realizar, cientificamente, argumentos que precisem passar continuamente pela coerência oferecida pela Razão Lógica. O Logos Demosntrativo, legado da Europa do Século XVIII, enraizou-se com força na cultura ocidental e, infelizmente, não conseguimos atingir o horizonte ou mesmo compreender a tragédia da vida humana, como nos demonstram as notas da nona sinfonia. A atividade da criação de um Direito pautado no significado estético, ou seja, na procura daquilo quese mostra como bom, que promove o bem e, portanto, integra as pessoas. A estética pode ser visualizada como essa composição proposta pela melodia da vida de todos os dias. Essa (nova) condição denota o caminho, a cartografia elaborada aos poucos para um tempo descrente de suas próprias utopias. Cada Bacharel em Direito, se relembrar seu juramento no dia de sua colação, verá o significado de sua vida pessoal na profissional e vice-versa. Não há outra possibilidade para que o Direito se crie senão por composição. Cada Pessoa, com seus valores e experiência, dialogará com outros, demonstrará sua percepção de mundo e, aos poucos, a composição será elaborada. Os acordes, mais graves ou agudos, indicam os passos pelos quais nossas almas trilharam. Na ausência do Outro, não há vida, musicalidade, disposição e compreensão do propósito existencial. Essa afirmação serve, também, ao Direito enquanto fenômeno normativo e científico. O Jurista e o Operador do Direito criam, diariamente, os significados do Direito. Entretanto, parece que algumas dessas citadas pessoas estão caminhando a passos exponencialmente tímidos para dialogarem consigos e compartilhar essa auto-reflexão com outros. Nessa condição, a estética das relações humanas, evidenciada, igualmente, pelo Direito sucumbe ao vazio de significações porque não há como ouvir essa melodia silenciosa. As notas, antes vivas, hoje são omissas. Deixaram de provocar o espanto às pessoas, deixando-as sob o véu da indiferença. A Sinfonia Jurídica não é capaz de provocar, de integrar, de compreender, de manifestar sua beleza, sua crítica, sua resistência contra os algozes da condição (dialogal) humana. Aos poucos, a musicalidade se recupera, contudo, a tarefa está longe de se encerrar. O Direito, se deseja trazer algo vivo para os Seres Humanos, precisa con-viver e des-cobrir a experiência que é Ser humano na vida de todos os dias. A postura científica olimpiana, os oráculos da verdade científica, aos poucos tem seu espírito erodido. A composição de Beethoven deixa claro os nossos ire e vires como andarilhos nos quais concebem a vida como tragédia e não um drama. Procuremos a beleza da essência humana, evidenciemos as utopias da esperança (Osvaldo Ferreira de Melo), as varidades de linguagens (Warat e Wittgenstein) e a bondade como grandeza Humana (Beethoven). A partir disso, o Direito flui como uma Sinfonia na qual propaga a paz entre as pessoas e revela sua procura pela presença do Outro. Não deixemos que a alma humana ensurdeça e deixe de apreciar a única possibilidade que a ergue e permite chegar na morada celeste promovida pela Razão e as Sensações. A musicalidade precisa estar presente ou a bela composição da multiplicidade de cada mundo interior não criará a unidade do bom para se promover o bem.
(extraído do blog A utopia do direito -http://sergioaquino.blogspot.com)

Novo livro do SC.


Para quem não acompanha o blog do Salo fica a dica.
Salo é o mestre dos mestres na Criminologia e seu livro é leitura obrigatória!




"Publicada a 3a edição, revista e ampliada, do Antimanual de Criminologia.

Na nova edição, além das alterações na "Apresentação", foram incluídos dois novos capítulos: "Criminologia Cultural e Pós-Modernidade: Aportes Iniciais e Perspectivas desde a Margem" e "Reprovabilidade e Segregação: as Rupturas provocadas pela Antipsiquiatria nas Ciências Criminais".

Texto da contracapa:
"Antimanual de Criminologia, diferentemente da simplificação da linguagem e dos problemas, como propõem os tradicionais manuais de direito penal, de direito processual penal e de criminologia, assume a complexidade das relações sociais na atualidade e a aporia das questões sem saída que a nervura da vida impõe de forma radical.
A hipótese que orienta o livro é a de que problemas complexos não podem ser tratados de outra forma senão complexamente.
A pasteurização realizada pelos manuais, ao invés de auxiliar a compreensão dos principais fenômenos sociais contemporâneos – sobretudo das violências e do papel das ciências criminais frente a esta realidade -, potencializa a crise, pois envolve o pesquisador (docente e discente) na trampa de ser possível de encontrar saídas e soluções pelos caminhos mais simples, mais didáticos.
Não por outra razão os pensamentos dogmático e criminológico não logram sair da crise que se instalou na década de oitenta, momento de ruptura que culminou no processo de desvelamento das reais funções desenvolvidas pelos sistemas punitivos."
(retirado do blog do Salo)

O respeito aos nossos fantasmas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Doçura pura.


Meu olhar.


Tenho vivido dias de Alice e nem sei se caminho pelo País das Maravilhas.

Ora tenho 35 anos, com maturidade, bom senso, certeza dos passos (quase!), outras vezes sou apenas uma menina de 20 anos, com suas inseguranças, sonhos e em outros momentos sou apenas uma frágil garotinha querendo colo ou um doce para alegrar o meu dia.

Confundo, afasto, complico, espanto e muitos não me reconhecem.

Querem minha cabeça, querem razão no meu coração, chamam meus sonhos e desejos de alucinações, olham meus atos e gestos como impulsivos, me julgam, me interpretam.

Ah, são apenas palavras que voam ao vento. É apenas um coração!

Olhe, olhe bem dentro dos meus olhos, consegue ver? Ainda que eu esteja vestida de P, M ou G, meu olhar continua o mesmo.

É que viver dói...

Sabe, eu sou assim mesmo, coração na mão, alma entregue (de graça!), telhado de vidro de primeira, cara pronta para o tapa, corpo feito para cair e levantar, nada em banho-maria. Por que não sei ser metade, acho um desperdício, se eu posso ser inteira!

Amor III


Um mundo feito de coisas nunca ditas.
Disso era feito aquela relação.
Fazia muito estavam ali, deitados, em silêncio.
Não ousavam dar nome ao que sentiam, não tinha forma.
Feito apenas de sorrisos, poucas certezas, sons e encontro.
O que importa como isso se chama?

Haviam esperado algum tempo para abrir a porta daquele vasto mundo, que de tão grande só cabia os dois.
Havia muito para ser dito, por isso permaneciam em silêncio. O corpo de um sendo casa do corpo do outro.

Ela pensava, mas pensava bem baixinho para que ele não ouvisse.

De todas as coisas que você não sabe,
das coisas que sinto,
de tudo que penso, quando sinto nós dois.
Coisas boas, leves, tristes, coloridas que voam pela minha cabeça enquanto te olho. É bom te ter ao meu lado.

Ele, que intuia o olhar, pensava alto, mas nunca a ponto de ser ouvido

De tudo que penso enquanto te sinto.
De como gosto de circular tua cintura, na denuncia do laço que nego
Do gosto que tenho por te prender entre braços impedindo teu corpo de escapar.
Escapar deste encontro. Você que sorri, parecendo adivinhar. Tão preso que estou. É bom te ter ao meu lado.


Descobriam juntos em silêncio, que distantes o muito era nada, e de que o pouco, juntos, era o muito mais.

De que, para alguns basta apenas um quarto, uma cama quente e água,
porque amar da sede.

De tudo que pensavam, quando abriam a porta para este pequeno mundo intimo, em que só cabiam os dois, e que nunca diriam, é que era bom amar e que amar dava sentido, mesmo em silêncio.

(Colhido da Andréa Beheregaray, minha assassina predileta!)

segunda-feira, 31 de maio de 2010


Deus me livre da afasia do amor!
(ES)

Quero morrer assim...


Anteontem, perdemos Dennis Hopper ("Sem Destino", "O Selvagem da Motocicleta" e tantos outros trabalhos).
Na matéria sobre a morte de Hopper, o colunista Mário Bortollo (Folha) descreveu com arte quem era o excêntrico e intenso ator e diretor americano:
"Hopper jamais moreria de tédio. Assim como o poeta russo Vladimir Maiakóvski, estaria disposto a morrer de vodca - jamais de tédio."
Eu também!

domingo, 30 de maio de 2010

Doutorando em Criminologia é suspeito de assassinatos.


Doutorando em Criminologia é acusado de matar prostitutas
Vizinho de suspeito diz que ele estudava a vida de Jack, o Estripador.
Caso emociona região

Um suposto estudante de doutorado em criminologia, de 40 anos, foi preso e está sendo interrogado pela polícia britânica sob a suspeita de ser o autor de quatro assassinatos de prostitutas na cidade de Bradford, no centro da Grã-Bretanha. Ele é apontado como estudioso do legendário criminoso inglês Jack, o Estripador.

O homem sob custódia - identificado como Stephen Griffiths -, foi preso inicialmente sob a acusação de ter assassinado Suzanne Blamires, de 36 anos, vista pela última vez na última sexta-feira.

A polícia local identificou ontem um corpo, encontrado esquartejado no início da semana, como sendo o de Suzanne. O corpo da mulher foi encontrado na terça-feira à tarde, em um rio próximo à cidade.

De acordo com policiais, ele também é suspeito pelas mortes de Shelley Armitage, de 31 anos, desaparecida desde 26 de abril, e de Susan Rushworth, de 43 anos, sumida desde junho de 2009.
Os casos estão chamado a atenção da imprensa britânica, que os comparou ao caso de Peter Sutcliffe, condenado pelo assassinato de 13 prostitutas, na mesma região, entre 1975 e 1980. Sutcliffe ficou conhecido como “o Estripador de Yorkshire”.

A suspeita sobre Griffiths teria sido levantada graças a imagens registradas em câmeras de segurança, obtidas durante a investigação realizada pela polícia da região de West Yorkshire.

Ele foi preso na segunda-feira, e até ontem permanecia detido, sendo interrogado por investigadores. O suspeito deverá permanecer sob custódia da polícia e, hoje, deverá se apresentar ao tribunal de West Yorkshire.

Com a ajuda de cães farejadores, a polícia britânica tem realizado busca em vários edifícios da região que concentra a prostituição em Bradford.

Segundo a BBC, a polícia também investiga a possível ligação de Griffiths com o assassinato, em 2001, de Rebecca Hall, uma prostituta de 19 anos. O corpo da jovem foi encontrado na mesma região onde viviam Suzenne e Shelley.

Peter Mann, porta-voz da polícia, disse existirem “evidências suficientes” para culpar o homem pelos crimes.

Griffiths seria formado em psicologia e estaria estudando direito criminal na Universidade de Bradford. Um vizinho dele afirmou que o tema da sua tese era Jack o Estripador, o assassino de prostitutas que aterrorizou Londres no século 19 (leia ao lado).

Os jornais dizem que ele tinha um perfil em uma rede social na internet, onde se descrevia como “o misantropo que levou o ódio ao inferno” (misantropo é quem tem aversão às pessoas). O suspeito vivia só, em um apartamento.

O suposto assassino foi descrito por vizinhos como um “solitário”, obcecado por prostitutas. De acordo com o jornal britânico The Times, ele costumava andar vestido com longos casacos negros, de couro, e óculos escuros, e teria uma criação de ratos para alimentar lagartos de estimação.

(Fonte: Jornal da Tarde)

*Para não enlouquecer, mesclamos estudos com muita, muita diversão!!! hahaha

Olhar amigo.


Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.
Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.
Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso figado.
E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
(V. Moraes)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sobre o amor II


Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas.

Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza.

Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz.

Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele.

Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

(F. Carpinejar)