terça-feira, 13 de julho de 2010

Olhares.

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus...

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...


*Achei esta "pérola" no blog do Alexandre.

Olhar de paixão.


Uma alegria para sempre


SERÁ POSSÍVEL que Jane Campion tenha dirigido um filme notável? Aconteceu. Ninguém diria. Campion, uma diretora que sempre gostou de abusar nos temperos (lembrar "O Piano" ou "Retrato de uma Mulher"), permitiu que "Brilho de Uma Paixão" respirasse por sua conta e risco.
O filme, atualmente em exibição, pretende narrar a história de amor entre John Keats, o maior dos poetas românticos ingleses, e a vizinha Fanny Brawne, uma "fashionista" antes das "fashionistas", embora com pergaminhos familiares.
O filme não diz, mas Brawne era sobrinha de "Beau" Brummel, o primeiro dândi moderno e o gênio a quem nós, homens, devemos o blazer. Quando estou em Londres, gosto sempre de passar pela estátua do cavalheiro e prestar a minha homenagem. Mas divago.
Ou não divago. Brummel, contrariamente à ideia que temos dos dândies, foi um revolucionário ao simplificar o modo de vestir: nas cores e nos cortes. Keats fez o mesmo na poesia, resgatando um sensualismo primordial que os críticos coevos tomaram por infantil ou anedótico.
Enganaram-se. Barbaramente. Mas Jane Campion não se enganou. O tom do filme é contido, quase desprovido de esforço ou artifício.
Os atores não existem para representar; eles existem para serem Keats (Ben Whishaw) e para serem Fanny (Abbie Cornish). Todos falam e agem como se fossem nossos vizinhos. Ou, melhor, como se nós fôssemos seus vizinhos e estivéssemos a espreitar pelo buraco da fechadura, como nos quadros de Vermeer.
E sobre as palavras que povoam o filme, Campion soube usar as cartas e os poemas de Keats com maestria hermenêutica, dedilhando com eles a gramática básica dos apaixonados em monólogos, diálogos, cartas.
"Brilho de Uma Paixão" começa por oferecer essa gramática; uma gramática sobre "a santidade dos afetos do coração", como afirma Keats, e nós vamos acompanhando a evolução desses afetos, apresentados na sua forma mais bela, despojada, dir-se-ia até pueril.
Fanny conhece Keats de forma casual, sem os heroísmos habituais dos filmes de época; em seguida, procura conhecer os seus poemas. Compra e lê "Endymion", o poema que a crítica, sempre inteligente, ridicularizou a golpes de maldade.
E quando o reencontra dias depois, diz-lhe com uma honestidade tocante: "Não estou certa de ter gostado de "Endymion", mas o começo é algo de perfeito. Não conheço palavras mais sábias e premonitórias".
É o princípio de uma história de amor, embora "amor" seja termo assustador e ambíguo para o assustadiço e ambíguo Keats.
Mas ele cede. E cede porque sabe: três dias de paixão são mais valiosos do que 50 anos de banalidade, escreve ele numa missiva. Mesmo que os dias sejam fugazes e, como na vida das borboletas, mortais.
É por isso que "Brilho de Uma Paixão" não é apenas uma história de amor. É um filme sobre a sombra de morte que paira sobre a história.
É o próprio Keats quem o afirma, uma vez mais, em carta a Fanny. Ele só tem dois luxos nas suas caminhadas solitárias: o amor que sente por ela e a certeza do fim. Um paradoxo? Nenhum paradoxo. Só a certeza do fim revaloriza e intensifica o amor por Fanny.
Para Keats, o fim chegaria aos 25 anos com a doença romântica por excelência: a tuberculose, essa "morte branca" que ceifara igualmente a mãe e o irmão. E que o poeta sempre pressentiu que o acabaria por visitar também.
Nunca presenciamos essa morte, que acontece longe, na amena Itália. Distante dos olhos de Fanny.
Mas o filme termina com ela. E ao contemplarmos o seu rosto funesto a deambular pela neve, é impossível não relembrar o primeiro poema de Keats que ela leu. E no qual pressentiu a perfeição do seu começo. "Uma coisa bela é uma alegria para sempre."
Verdade. Absoluta verdade. A beleza pode ser fugaz e perecível. E talvez por isso ela nos comova tanto: porque a sabemos frágil e condenada; porque nos sabemos frágeis e condenados.
Mas enquanto existirem olhos que a contemplem, ela será eterna para nós.
(João Pereira Coutinho, Folha, 13/07/2010)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Santé?


100%


Atenção, pecadores e viciados em sexo, comida, bebida, dinheiro e poder: vocês estão ultrapassados. Há uma nova ganância no ar: a mania de qualidade de vida e saúde total. Esta ganância é o que o jornal "Le Monde Diplomatique" já chamava de "la grande santé" ("a grande saúde") nos anos 90. A mania de ter a saúde como fim último da vida.
Acho isso antes de tudo brega, mas há consequências mais sérias que um simples juízo estético para esta nova forma de ganância. Consequências morais, políticas e jurídicas: o controle científico da vida.
Agora esses fanáticos estão a ponto de demonizar o açúcar, a gordura e o sódio. Querem fotos de gente morrendo de diabetes no saco de açúcar ou de ataque cardíaco nas churrascarias. O clero fascista da saúde não para de botar para fora sua alma azeda.
Mas, como assim, ganância? Sim, esta ganância significa o seguinte: quero tirar do meu corpo o máximo que ele pode me dar. Inevitavelmente fico com cara de monstro narcisista quando dedico minha vida à saúde total. Sempre sinto um certo ar de ridículo nesses pais que obrigam seus filhos a comer apenas rúcula com pepinos e cenoura desde a infância.
Suspeito que os "purinhos", no fundo, se deliciam quando veem fumantes morrerem de câncer ou carnívoros morrerem do coração. Sentem-se protegidos da morte porque vivem como "pombinhos da saúde". São medrosos. A vida é desperdício, e ganancioso não gosta disso.
No caso da morte, probabilidade é como gravidade: 100% de certeza. Logo, a luta contra a morte é uma batalha perdida, nunca uma vitória definitiva.
Se você não morrer de acidentes (carro, avião, atropelamentos, assaltos, homicídios) ou de epidemias (tipo pestes) ou por endemias (tipo doença de chagas), ou de doença metabólica (tipo diabetes) ou de doenças cardiovasculares (tipo AVC ou acidente cardiovascular e ataque cardíaco), você sempre morrerá de câncer.
Claro, ainda temos contra (ou a favor) a tal herança genética. Você passa a vida comendo rúcula e morre de AVC porque suas "veias" não valem nada. Que pena, passou uma vida comendo comida sem graça e morreu na praia. E vai gastar dinheiro com hospital do mesmo jeito, ou, talvez, mais ainda. Sorry.
Logo, caro vegetariano, escapando de doenças cardiovasculares porque você evitou (religiosamente) gorduras supostamente desnecessárias, você pode simplesmente morrer de câncer porque deu azar com o pai que teve ou porque, no fim, tudo vira câncer, não sabia?
Um dia, esses maníacos da saúde total desejarão processar os pais por terem deixado que eles comessem coxinhas e brigadeiros quando eram crianças ou porque simplesmente tinham maus genes em seus gametas.
Sinceramente, não estou convencido de que viver anos demais seja muito vantajoso. Sem "abusar" da comida, da bebida, do tabaco, do sexo, das horas mal dormidas, não vale a pena viver muitos anos.
A menos que eu queira ser uma "freira feia sem Deus", o que nada tem a ver com freiras de verdade, uso aqui apenas a imagem estereotipada que temos das freiras como seres chatos, opressores e feios , ou seja, uma pessoa limpinha, azeda e repressora.
Como diz meu filho médico de 27 anos, "nunca houve uma geração tão sem graça como esta, obcecada por viver muito". Eu, pessoalmente, comparo esta geração de pessoas obcecadas pela saúde àqueles personagens de propaganda de pasta de dentes: com dentes branquinhos, cabelos bem penteados e com cara de bolha (ou "coxinha", como se diz por aí).
Dei muita risada quando soube que alguns cientistas estavam relacionando câncer de boca à prática frequente de sexo oral. Será que sexo oral dá cárie também? Terá a vida sentido sem sexo oral? Fazer ou não fazer, eis a questão!
Essa ciência horrorosa da saúde total deverá logo descobrir que sexo oral faz mal, e aí, meu caro "pombinho da saúde", como você vai fazer para viver sendo perseguido pela saúde pública? Talvez, ao final, não seja muito problema para você, porque quem é muito limpinho não deve gostar mesmo dessa sujeira que é trocar fluidos e gostos por aí.

(Luiz Felipe Pondé - Folha de São Paulo, 12/07/2010)

Entreolhares.

domingo, 11 de julho de 2010

Habilidades.


Olhar de viver.


"Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação,nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança.Sobretudo,devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente.
...
Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexequível. O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um - solitariamente.
Porém uma conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto e amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu espectador - como dois amantes
...
Assim, viver, como talvez morrer, é recriar-se a cada momento.Arte e artifício, exercício e invenção no espelho posto à nossa frente ao nascermos.
Algumas visões serão miragens: ilhas de algas flutuantes que nos farão afundar. Outras pendem em galhos altos demais para a nossa tímida esperança. Outras ainda rebrilham, mas a gente não percebe - ou não acredita.
A vida não está aí apenas para ser suportada ou vivida, mas ELABORADA. Eventualmente reprogramada.Conscientemente executada.
Não é preciso realizar nada de espetacular.
Mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo.
(L. Luft)


Pois viver deveria ser - até o último pensamento e o derradeiro olhar - tranformar-se.

Olhar para amores possíveis.

"Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. Ele só precisa da liberdade para a escolha, não para sua implementação. Todo amor verdadeiro profundo é um sacrifício. Sacrificamos nossas possibilidades, ou melhor, a ilusão de nossas possibilidades."
(Jung)

...

"Mentir diverte as mulheres e, sem tirar a roupa. Mas tirando é muito melhor"

sábado, 10 de julho de 2010

Entreolhares.

Os sonhos diminuem distâncias, saudade...

E assim, "não importa o quanto vai durar - é infinito agora.

Ela gostava de estar com ele,
ele gostava de estar com ela.
Isso era tudo"
(C. F. Abreu)
* Pintura de Marc Chagall.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mais poetinha.


Conjugar o verbo num poema, e amar em outro. Hoje faz trinta anos da despedida de Vinicius. (...)as melhores músicas e os melhores poemas. Sempre.

Minha Namorada

Meu poeta eu hoje estou contente
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo de morrer
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você

Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ter
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porque

E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois
(peguei do blog do Juliano - direitoforadolugarcomum.blogspot.com)

Doçura


Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios, o meu nome, o meu nome era Vinicius e se esses vícios fossem muito imorais, o meu nome era Vinicius de Moraes.
(V. Moraes)

O meu colar.


Ela põe os brincos na cômoda para não me machucar, assim como aparo a barba para não esfolar seu rosto.

Estamos desarmados.

Já sabemos o que vai acontecer, não sabemos como, nunca sabemos como. Ela pode estar mais pura ou mais sarcástica. Pode raspar os dentes antes de beijar ou me contornar com a língua e deixar que meu gemido indique o lugar de sua boca. Posso receber sua precipitação ou sua paz.

Quando transo com minha mulher, temo perder a memória. É para esquecer datas, lugares, nomes. Somos desmemoriados pelo excesso de desejo.

A memória é covarde, não entra em algumas cidades, a imaginação segue sozinha, como sempre.

O que mais me excita é que ela não tira o colar. Nua, branca, sinuosa, resiste com o colar. Já largou a calcinha e o sutiã, e não o colar. Ela é impetuosa, pisa em suas roupas quando vem em minha direção, mas não se afasta do colar. Não se esconde nas cobertas, pede que eu a olhe, que eu a admire, que eu tenha consciência com quem estou lidando. Não há timidez mais, não há timidez na fome. Ela me encara com suas contas no pescoço. Já nos conhecemos demais e isso aumenta o mistério. A intimidade é perigosa porque é capaz de ferir para aumentar a fragilidade. A surpresa somente existe na intimidade. Intimidade é a confiança dentro do medo.

Ela não sobe e desce. Subir e descer não requer arrebatamento - é angústia dos apaixonados. O que ela faz é diferente: ela anda pelos lados. Ela ladeia em mim. Monta em círculos. Como se a cama não tivesse fim ou borda. Como se minha nudez fosse a sua e ela se devolvesse.

Não aumenta os movimentos, desobedece ao vento, diminui, desacelera. Brinca em se despedir. Como se alguém fosse entrar naquele momento pela porta. Como se ouvisse um barulho estranho e parasse. E não chega ninguém, e rebola, os lençóis perto são sua saia, ela me desafia a ver o que está vendo - nos assistimos por um tempo para criar saudade antes da lembrança.

O colar balança, seus seios seguram minhas mãos. Não é aturdida de pressa, não pretende se livrar do meu cheiro, ele me agride com as palavras e me acalma com seu movimento. São duas mulheres conversando com o meu corpo, brigando pelo meu corpo, indecisas, a que liberta pela fala e a que me prende pelas pernas. Eu não entendo para onde vou, e me seguro na confusão.

Não pergunto quando vai gozar. Ela morderá o colar. Morderá com força. Nada mais deslumbrante do que uma mulher mordendo o colar para não gritar. Um dia ainda verei as pedras partindo de seus olhos.

Seu colar é minha coleira.

(F. Carpinejar)

O silêncio dos olhares.

"Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?"
(C. Lispector)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Meu olhar.

Olhar colorido.

"Eu por mim sonhava com você em todas as cores"
(C. Buarque)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Olhar para arte.

Projeto "Playing for Change" - sensacional!!

(roubei do blog do Salo - antiblogdecriminologia.blogspot.com)