quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Olhar essencial.



Perdi várias coisas em Buenos Aires. Pela pressa ou por azar, ninguém sabe onde foram parar. Saí com um pouco de roupa e um punhado de papéis.
Não me queixo. Com tantas pessoas perdidas, chorar pelas coisas seria desrespeitar a dor.

Vida cigana. As coisas me acompanham e vão embora. São minhas de noite, perco-as de dia. Não estou preso às coisas; elas não decidem nada.

Quando me separei de Graziela deixei a casa de Montevidéu intacta. Ficaram os caracóis de Cuba e as espadas da China, os tapetes da Guatemala, os discos e os livros e tudo. Levar alguma coisa teria sido um roubo. Tudo isso era dela, tempo compartido, tempo que agradeço; e me larguei no caminho, rumo ao não sabido, limpo e sem carga.

A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo.

Febre de meus adentros: as cidades e as gentes, soltas da memória, navegam para mim: terra onde nasci, filhos que fiz, homens e mulheres que me aumentaram a alma.

(E. Galeano)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Olhar para delicadeza.

(Chagall)

Toda delicadeza de Chico:

Depois de nos perdermos;

"Te encontro, com certeza; Talvez num tempo da delicadeza"


*num tempo da delicadeza...*

Livros: Coleção CriminologiaS.



Já estão disponíveis no site da Editora Lumen Juris os sete primeiros livros da Coleção CriminologiaS, coordenada por Rodrigo G. de Azevedo e Salo de Carvalho. 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Olhar para o amor de uma mulher.

(Gustav Klimt)

Os homens são cheios de teorias sobre o que gostamos ou deixamos de gostar neles.

Muitos estudam, são cheios de papos da psico, sabedores da alma feminina.

Na realidade eles não sabem nada, nadica de nada. Puro papo furado!

Homem baixo ou alto; culto ou ignorante; lábios carnudos ou finos; cheiroso ou nem tanto; careca ou cabeludo; arrumadinho ou totalmente fora de moda; com barba ou sem barba; pegada boa ou ruim; sorriso perfeito ou 1001; engraçado ou rabugento; fiel ou canalha; 'grande' ou 'pequeno'; carinhoso ou gaúcho (rs)... não importa.

Quando amamos um homem, não existem modelos, teorias, comparações, tudo nele é perfeito.

Só há uma coisa que mulher não tolera em um homem e deixo Carpinejar, com toda doçura habitual, ensinar-lhes a única teoria que devem saber sobre o relacionamento de um homem e uma mulher.
 
 
"Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhadas de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente,trocar os talheres de um momento para o outro.
Qualquer coisa é admitida,menos que não ame com coragem.
Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo,de gosto,de opinião. Nao se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente.
Amar para valer, para provocar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Antes decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.
 
Amar com coragem, só isso."
 
(Carpinejar, o verdadeiro leitor das almas femininas)  

"...mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida..."

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Olhar de preocupação.



Madame Roriz se supera. Ao votar, esqueceu de apertar a tecla "confirma".


E nosso Brasil se supera: sra. Roriz para o segundo turno, suas duas filhas eleitas e Tiririca o mais votado.

Não é motivo de risos e sim de preocupação!

Barulhinho bom para terminar o final de semana.

Tiê, com trechos de Clarice Lispector.

Olhar estrelas.

(Vicent van Gogh)


A bomba abriu um belo buraco no teto, por onde o céu azul sorri para os sobreviventes.
(Quintana)



* pelo buraco observo toda beleza das estrelas...* 






Olhar sem defesas.


Particularmente amo aqueles que me permitem retirar os mecanismos de segurança, dos sentidos, dos saberes, para por a leitura do mundo em “roda livre”

(casa Warat)

sábado, 2 de outubro de 2010

Olhar de desencontro.


*O vazio das palavras no desencontro*

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

(V. Moraes)




 

Olhar...



"Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote.

Vou comprar frutas mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, não me junto a elas.

Presto atenção às palavras do cobrador do ônibus, como se ele fosse um mensageiro voluntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores.

Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro.

Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda  pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone.

Estou me guardando em cada desencontro ."

(Carpinejar - Canalha) 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Seminário Criminologia.

Vergonha alheia II

Ver e olhar.




"...apesar de não ser o primeiro a debruçar-se sobre a dicotomia ver/olhar, Saramago demonstra uma ânsia tão ardente pela decifração da relação entre esses dois processos que nos reporta a Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, para quem é urgente a necessidade de se atentar para o "puro olhar" ou o "olhar nítido como o girassol". Segundo Caeiro, olhar é mais importante do que pensar, pois pensar é julgar. O puro olhar para Caeiro devolve as coisas ao seu lugar no mundo, sem que se estabeleça uma necessidade artificial de relações e julgamento de valores.
... existe um "ver por ver", sem o ato intencional de olhar e um ver como resultado obtido a partir de um olhar ativo, um "ver depois de olhar".
Saramago insiste para que atentemos para este ponto e expressa toda a sua inquietude na epígrafe de ensaio sobre a Cegueira: "Se podes olhar vê. Se podes ver, repara.". Para Saramago não basta o ver ativo (um ver depois de olhar), é necessário aguçar ainda mais a visão e "reparar". Torna-se imprescindível que atentemos para dimensão semântica do verbo reparar. Segundo definição do dicionarista Aurélio B. de Holanda, o verbo pode ser conceituado como "consertar, restaurar, corrigir, eliminar ou remediar as consequências de uma erro (mal entendido), dirigir ou fixar a vista". Todas essas definições para condizer com a proposta, ou a intenção discursiva de Saramago. Reparar, portanto seria um processo pelo qual o indivíduo "corrigia" sua primeira impressão sobre as coisas adquirida por meio de uma observação superficial"
(I. A. Ferreira)


*que possamos "reparar" nossos olhares.